A orientação às micro e pequenas empresas para a adoção de práticas sustentáveis e o fortalecimento da cadeia de reciclagem estão entre as ações desenvolvidas pela Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) em Alagoas.
Por meio do AL-Invest Verde, programa financiado pela União Europeia e implementado por um consórcio liderado pela organização alemã sequa, a iniciativa promove a economia circular e amplia a conexão entre o setor empresarial e entidades como a Associação de Catadores de Materiais Recicláveis (ACAMARE), em São Miguel dos Campos.
O trabalho inclui visitas técnicas e orientações porta a porta a estabelecimentos comerciais e de serviços, com foco na separação e no armazenamento de materiais recicláveis, na redução de desperdícios e no uso consciente de água, energia e outros recursos. As ações também incentivam a articulação entre empresas e a cadeia local de reciclagem, contribuindo para a destinação adequada dos resíduos.
No caso da ACAMARE, fundada em 2015, a associação atua na coleta, triagem, prensagem e comercialização de materiais recicláveis, como papel, papelão, plásticos, vidros e metais. A entidade também desenvolve atividades de educação ambiental e participa de mutirões de limpeza e coleta seletiva durante o tradicional São João de São Miguel dos Campos.
Segundo informações da associação, o volume de materiais recicláveis processados passou de aproximadamente 40 toneladas por mês, em 2025, para cerca de 60 toneladas mensais, em 2026. O avanço representa um crescimento de 50% e está associado a uma trajetória de mobilização dos catadores, ampliação das parcerias e de sensibilização de empresas, além da participação do poder público e de instituições parceiras.
Práticas sustentáveis em Alagoas
Um levantamento baseado em autodeclarações reúne informações de mais de 2 mil micro e pequenas empresas de Alagoas, com Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) válido, que formalizaram dados sobre iniciativas sustentáveis em seus estabelecimentos.
Desse universo, 1.259 empresas declararam separar materiais recicláveis, 768 informaram manter parcerias com cooperativas de reciclagem e 1.739 registraram o monitoramento do consumo de água, energia e papel.
De acordo com a CACB, os números refletem práticas informadas pelos próprios empreendedores e não indicam, necessariamente, que todas tenham sido adotadas após as visitas técnicas. Os dados, porém, demonstram a presença de iniciativas relacionadas à sustentabilidade entre os negócios participantes.
Outro resultado registrado pelo projeto é o reconhecimento de 28 estabelecimentos certificados pela ACAMARE pela separação e destinação adequada de resíduos. A certificação valoriza o envolvimento das empresas com a coleta seletiva e contribui para ampliar a participação do setor produtivo na economia circular.
A loja Mundo do Real está entre os estabelecimentos reconhecidos. Para Marcelo Vicente de Araújo Junior, representante da empresa, as ações estimularam uma atenção maior à gestão dos resíduos e ao destino dos materiais descartados. “É importante saber que uma atitude dentro da empresa pode contribuir para o meio ambiente e também para o trabalho desenvolvido pelos catadores”, afirma.

Marcelo Vicente de Araújo Junior (à direita), da loja Mundo Real, recebe de membro da equipe do projeto AL-Invest Verde o certificado de Empresa Sustentável. Foto: Divulgação.
Apoio e orientação
O apoio da CACB, no âmbito do AL-Invest Verde, envolve orientação empresarial, prestação de serviços, suporte técnico e desenvolvimento de conteúdos educativos. A atuação busca fortalecer a gestão da associação e estimular a cooperação com os empreendedores locais, sem repasse financeiro direto.
Entre os materiais desenvolvidos com apoio do programa está a apresentação “Trabalho seguro na reciclagem”, voltada à prevenção de riscos ocupacionais e à orientação sobre o uso adequado de equipamentos de proteção individual (EPIs), coleta e triagem. Placas educativas também foram produzidas para auxiliar os procedimentos cotidianos dos trabalhadores.
A associação mantém, ainda, articulações com o Instituto Federal de Alagoas (IFAL) e com o Programa de Desenvolvimento Territorial (Prodeter), do Banco do Nordeste.

Comerciante é orientado sobre capacitação dos processos de boas práticas empresariais e parceria com a ACAMARE. Foto: Divulgação.
Selo Verde Ambiental
Em 2026, a ACAMARE conquistou o Selo Verde Ambiental, concedido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos de Alagoas (Semarh) e pelo Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA-AL). Para o presidente da associação, Cláudio Roberto, o apoio do AL-Invest Verde contribuiu para aprimorar a gestão, identificar oportunidades e ampliar as perspectivas de atuação da entidade.
“O apoio do AL-Invest Verde veio para dar um fôlego à gestão da ACAMARE. O projeto nos ajudou a enxergar novos caminhos, buscar parcerias e fortalecer nosso trabalho. Todo esse movimento contribuiu para a nossa trajetória e para a conquista do Selo Verde Ambiental estadual. É uma conquista que nos orgulha e nos incentiva a continuar”, afirma.
O secretário municipal de Meio Ambiente, Alfredo Ferro, também destaca a importância da colaboração entre os diferentes atores envolvidos no desenvolvimento das ações ambientais. “Esse resultado não acontece de forma isolada: é fruto de um trabalho conjunto, que reúne associação, poder público, empresas e parceiros comprometidos com a transformação ambiental do município”, destaca.
Renda e inclusão produtiva
Além dos benefícios ambientais, o fortalecimento da cadeia de reciclagem tem reflexos diretos na vida dos trabalhadores da ACAMARE. A ampliação das atividades e das parcerias contribui para valorizar o trabalho dos catadores e reforça o papel da reciclagem como instrumento de inclusão produtiva.
Maria Denise, integrante da associação há muitos anos, destaca a autonomia proporcionada pela atividade e a possibilidade de alcançar objetivos pessoais a partir da renda obtida com o trabalho. “Hoje, com o que faço aqui, consigo comprar minhas coisas, realizar meus objetivos e ter mais condições de seguir em frente”, relata.
José Cícero, também integrante da entidade, ressalta que o crescimento da associação e as capacitações realizadas contribuíram para melhorar as condições de trabalho e a renda dos profissionais. “A associação está crescendo e isso também refletiu na nossa renda. Meu salário aumentou, e isso faz diferença na vida da gente e da nossa família”, afirma.

Da esquerda para a direita na foto: José Cícero da Silva Rodrigues, Jeferson Jardiel dos Santos, Claudio Roberto (presidente da ACAMARE) e Maria Denise Lopes dos Santos. Foto: Divulgação.
Cooperação e economia circular
A experiência de São Miguel dos Campos demonstra como a orientação a micro e pequenas empresas, a qualificação dos trabalhadores e a cooperação entre instituições podem ampliar a participação do setor produtivo na economia circular. Ao incentivar a separação de resíduos na origem, fortalecer a atuação dos catadores e aproximar empresas da estrutura local de reciclagem, as ações contribuem para reinserir materiais na cadeia produtiva, reduzir o descarte inadequado e diminuir a demanda por recursos naturais.
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